domingo, 1 de julho de 2012


O texto a seguir fará parte da Revista Plagium, editada por Benoni Araújo, no relançamento do tema erotismo. Comentem!!!

O poder sobre corpo em Candunga

O romance Candunga, de Bruno de Menezes, foi publicado em 1954 e faz parte, juntamente com a novela Maria Dagmar, da rara produção em prosa do autor, um poeta em sua magnitude. Candunga trata de migração nordestina para a Zona Bragantina, nordeste do Pará, por conta da colonização ao longo da Estrada de Ferro de Bragança. Uma família de retirantes cearenses dá o tom ao longo do romance, vivenciando peripécias diversas no que diz respeito ao uso da terra e ao trabalho.
     Dentre vários, destacarei de forma breve um ponto que considero bastante relevante na obra a ser observada: o uso do corpo como manutenção de poder. Desde o princípio da obra nota-se certa inclinação à sensualidade do corpo feminino por parte do narrador, descrevendo todos os retirantes, protagonistas de Candunga, dando feições animalescas, em alguns trechos, aos homens (Gonzaga e Candunga) e ressaltando, apesar das adversidades, a beleza das mulheres (Tereza, Assunção, Ana e Josefa). Observem-se tais descrições:

Francisco Gonzaga, cearense do Canindé, bordejando pelos sessenta anos, apresenta a mesma fisionomia sofrida de todos os retirantes. Em meio ao emaranhado sujo da barba, quando fala retorce a boca vincada, com a dentadura amarela, salivando “masca” [...] Antônio Candunga, seu afilhado, pelo físico dessorado, lembra um novilho desgarrado, de ossatura à mostra, a quem abriram a porteira do curral.
Tereza Rosa [...] ainda estampa nas feições maceradas traços de beleza sertaneja [...] Ana e Josefa [...] já manifestando faceirice nos gestos e nos olhares. Dois tipos característicos de nordestinas novas e bonitas, apesar dos horrores da seca. [1]

      No que diz respeito às relações de trabalho e ao corpo na zona bragantina, no contexto do romance, a escravidão por dívida é um dos meios pelos quais os “coronéis” do lugar obtêm êxito em suas empreitadas econômicas. O favor dá o tom nesta relação de trabalho, mas se deve ressaltar que a colheita, objeto de desejo dos “coronéis”, só é feita por conta da exposição de corpos resistentes o bastante para tal labor.
No que tange ao “favor”, Roberto Schwarz observa muito bem o que a colonização provocara no Brasil:

Esquematizando-se, pode-se dizer que a colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o “homem livre”, na verdade dependente. Entre os primeiros dois a relação é clara, é a multidão dos terceiros que nos interessa. Nem proprietários, nem proletários, seu acesso à vida social e a seus bens depende materialmente do favor, indireto ou direto, de um grande. [2]
     
Em Candunga, os colonos dependiam dos “favores” dos coronéis, que lhes forneciam vestimentas e alimentos em troca do trabalho na colheita, valendo-se da força dos corpos para o lucro da produção. O narrador de Candunga, tal qual o discurso euclidiano n’Os Sertões, destaca, apesar do aspecto desaprumado e desafortunado, a força que possui o homem nordestino. Observe-se o trecho a seguir:

Nesses dias de faina exaustiva, Gonzaga e Candunga parece que se esquecem de sua triste condição de párias, de esfalfados matungos, arrebentando-se de trabalhos.
Volvem sempre ao escurecer, porejantes e famintos. E vendo-os abatidos pelo esforço em realizarem, só os dois, o que ocuparia muitos braços, Tereza e Assuncão se oferecem para ajudá-los. [3]  

Nesta relação, o migrante tem somente sua força de trabalho para oferecer aos “donos” das terras onde trabalham, enquanto que os comerciantes usufruem destes corpos para o seu único bem, a geração de lucro aos seus negócios. O que Foucault chama de “economia política do corpo[4]”, punição e obtenção da docilidade para que tais corpos continuem subservientes.
      Além do usufruto do corpo do homem como força de trabalho, há, também, a relação com o corpo da mulher em Candunga, também como força de trabalho. No entanto, a forma que os comerciantes utilizam o corpo feminino é diferente da dos homens, apesar do objetivo ser o mesmo, o lucro.
      Ana e Josefa, as duas filhas de Gonzaga e Tereza, tornaram-se objeto de desejo dos homens da região, moças bonitas que são, despertam a libido masculina com os seus jeitos e trejeitos. Ambas sentem falta da “vila”, lugar onde os galanteios eram comuns, diferentemente do “centro” onde se encontram. O narrador despende um longo trecho para descrever as duas meninas, bem como a sensação que suas presenças causavam:

Ana, alourado cálido, de melaço fumegante, pele branca e sedosa; Josefa, amorenado-jambo, cílios negros e longos, sombreando-lhe os olhos; quando elas passavam pelos corredores do estabelecimento, ou vinham auxiliar Rosinha a servir os fregueses, não havia homem que não detivesse o olhar para admirá-las, com uma gula intencional de desejo.
Uma com dezesseis, outra um ano mais velha, tanto na doçura cantante da voz da primeira, como na negrura úmida dos olhos da segunda, emanavam fluidos de singular atração. Com as espáduas e as ancas firmes das mulheres de remanescentes semíticos, que marcavam a sua raça, seus corpos núbeis mostravam detalhes de linhas finas e uma natural esveltez no andar aprumado[5]. 
     
Nota-se o esmero do narrador na descrição das filhas de Gonzaga. Estes trechos nos dão a mostra do poder exercido pelo corpo enquanto produção.
      A razão que motivara a saída de Ana e Josefa da casa dos pais, no “centro”, foi a não adaptação das meninas somada à vontade de João Portuga, comerciante local, de tirá-las do barracão e levá-las para a “vila”. Tal vontade do português se deu por conta dos negócios com a concubina Rosinha, prostituta requintada que viera da capital com o intuito de levar moças novas a Belém.
      Com toda a movimentação que havia na “vila”, atrativos para Ana e Josefa, o comércio de toda espécie, o falatório, a jogatina, a prostituição, eram comuns histórias que traziam consigo a marca do local. O que me chamou a atenção foi Chica Sem Medo, “que tinha um A B C amoroso dos mais corajosos[6]”. O narrador despende uma página para contar o caso da famosa prostituta, oriunda da Paraíba, que levava a vida na Zona Bragantina. Chica foi flagrada com um freguês, ambos “teriam ido pecar, no próprio leito que Chiquinha, por necessidade, não pudera honrar para sempre[7]”, pelo homem que a lançara na vida de prostituta e agora se sentia traído por Chica. No entanto, a Sem Medo não se intimida e quer continuar o ato libidinoso em frente ao lesado, não concluindo o feito por conta do medo do freguês que fugira. Enquanto isto

O amante, desmoralizado, acende um fósforo e fica de apático, diante da mulher que friamente chalaceia de seus brios.
O caso ficou muito falado. E desde essa mesma noite, e daí por diante, ela não teve mais dono. No mercado, nas feiras, nos “forrós”, passou a ser chamada “Chica Sem Medo” que os homens cobiçavam, mas respeitavam e temiam. [8]

           O destino de muitas moças oriundas do Nordeste seria, por falta de orientação e pela má índole dos mandatários, tornarem-se uma Chica Sem Medo na zona bragantina, ganhando o sustento com a venda de seu corpo. Ana e Josefa caminhavam para tal desdobramento. Isto foi um dos geradores da crise entre os espaços “vila” e “centro”. Chica Sem Medo se torna uma personagem à parte, pois não participa das imbricações do romance, apenas tem sua história mencionada, sendo uma possível referência à situação de várias moças da região, principalmente, em Candunga, para Ana e Josefa.
      Observe-se o trecho a seguir que narra o primeiro encontro entre Rosinha e João Portuga, os aliciadores em Candunga:

Certa noite de bródio alegre, numa pensão mundana, das tantas que fazem a vida noturna de Belém, a dona da casa, que sabia como Portuga aumentava o dinheiro, do prestigio que desfrutava entre os funcionários das repartições fiscalizadoras, quer da União, do Estado ou do Município, muitos deles participantes habituais de suas farras, Rosinha resolve propor-lhe um negócio. Vez em quando, ela viajava para a Estrada de Ferro de Bragança, no seu comércio de conseguir “pequenas novas” para sortir a pensão. Preferia as do interior, porque constituíam “novidades” para os fregueses já pouco entusiasmados pelas raparigas que vinham de outros Estados, muito “artistas” e profissionais. [...]
[As moças do interior] Tinham mocidade, boa aparência, e ignoravam a cotação do amor que faziam, tanto que, muitas vezes, mandavam os homens pagar à dona da casa o que seria para elas, produto de seu corpo.[9] [Grifo meu]. 
     
Neste trecho se pode ver o motivo da busca das meninas por João Portuga e enquanto ambas não embarcassem para Belém ficariam em sua casa, ajudando Rosinha no comércio e contribuindo para o aumento da freguesia: 

Ana e Josefa ficando mais apetitosas, atraindo a freguesia para os negócios de Portuga, prosperamente administrados pela jeitosa Rosinha.[10] João Portuga, murmurava-se, teria triplicado seus negócios depois da ida das retirantes para sua casa.[11] 
     
Enquanto Gonzaga e Candunga usam seus corpos na colheita, Ana e Josefa utilizam seus corpos para o deleite alheio. Em ambos os casos o lucro é garantido pela força de trabalho implementada por tais corpos, mantendo o poder dos “coronéis” da região. No que diz respeito às relações que possuem a submissão do corpo como base Foucault diz que

As relações de poder tem alcance imediato sobre ele [corpo]; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais. Este investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocas, à sua utilização econômica; e, numa boa proporção, como forca de produção que o corpo é investido por relações de poder e de dominação; mas em compensação sua constituição como forca de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de sujeição (onde a necessidade é também um instrumento político cuidadosamente organizado, calculado e utilizado); o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso. [12]

      O corpo é a produção, o favor é a submissão. Em Candunga, os corpos foram úteis até certo ponto, pois continuaram sendo produtivos, mas não mais submissos. A conscientização dos colonos pelo agrônomo Romário e seus desdobramentos, entre eles a morte do português João, quebraram o paradigma de exploração instaurado na zona bragantina. Ana e Josefa foram enviadas à cidade de Belém, mas sem relações com Rosinha. Candunga, o herói do romance, casou-se com Assunção e passou a cuidar das terras que lhe pertenciam de fato e de direito. Tereza morrera doente e desgostosa pelas intempéries familiares, e Gonzaga fugira após o assassinato de João Portuga.
      Em Candunga, com a temática dos retirantes vindos para a Zona Bragantina, tendo como herói um nordestino, ressalta-se, sem surpresas, que o romance termina como começou, entoando um futuro esperançoso, não à família de Candunga somente, e sim, aos colonos da área. “O povo quer botar um nome na Colônia, mas não de político, nem de santo. Um nome assim com as palavras que o doutor [Romário] dizia para eles[13]. O nome da colônia, Novo Porvir, sintetiza todo este sentimento expresso ao longo do romance. Por meio do labor e contra as injustiças instauradas há tempos no local, os colonos tentam viver uma vida nova desde o início do romance, passando por dificuldades diversas e terminando sua saga, literalmente, na esperança de um novo porvir, já “que havia um símbolo de redenção, no batismo de luz daquelas terras[14].
     




[1] MENEZES, Bruno. Candunga: cenas das migrações nordestinas na zona bragantina. In: Obras Completas, v.3, Ficção. Belém: SECULT, 1993. (pp. 99-100).
[2] SCHWARZ, Roberto. As ideias fora do lugar. In: Ao Vencedor as Batatas. 4ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1992, p. 16.
[3] Ibidem, pp. 119-120.
[4] “Mas podemos sem dúvida ressaltar esse tema geral de que, em nossas sociedades, os sistemas punitivos devem ser recolocados em uma certa ‘economia política’ do corpo: ainda que não recorram a castigos violentos ou sangrentos, mesmo quando utilizam métodos "suaves" de trancar ou corrigir, é sempre do corpo que se trata - do corpo e de suas forcas, da utilidade e da docilidade delas, de sua repartição e de sua submissão”. FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 29ª ed. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 24. A punição, no romance de Bruno, seria a própria situação vivida pelos colonos da zona bragantina. Para nós, a produtividade e a submissão dos corpos em Candunga são latentes no que diz respeito aos colonos trabalhadores e, principalmente, às meninas Ana e Josefa.
[5] MENEZEZ, 1993, p.185.
[6] Ibidem, p. 201.
[7] Ibidem, p. 202.
[8] Idem/Ibidem.
[9] Ibidem, p. 150.
[10] Idem/Ibidem.
[11] Ibidem, p.185.
[12] FOUCAULT, 2004, pp. 24-25.
[13] MENEZES, 1993, p. 238.
[14] Ibidem, p. 239.

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